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30/06/2020 Pietro Zanderi – Osservatore Romano Notícias das paróquias Uma terra banhada pelo sangue dos mártires
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A basílica vaticana foi construída em terra banhada no sangue dos mártires. Histórias contam que foi o próprio imperador Constantino, no início do século IV, a iniciar com as próprias mãos a cavar as fundações da primeira basílica e carregar nas costas, no oitavo dia após seu batismo, doze cestos de terra para erguer o templo, de acordo com o número dos doze apóstolos.

No Angelus da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, o Papa Francisco recordou que neste dia 30 de junho é celebrada a memória dos proto-mártires romanos.

Celebrando a solenidade de São Pedro e São Paulo, gostaria de recordar os muitos mártires que foram decapitados, queimados vivos e mortos, especialmente no tempo do imperador Nero, precisamente nesta terra onde vocês estão agora. Esta é uma terra ensanguentada por nossos irmãos cristãos.

De fato, o apóstolo Pedro foi crucificado no Vaticano após o terrível incêndio que devastou Roma em 19 de julho do ano 64. Junto com ele, uma grande multidão de cristãos sofreu o martírio com torturas atrozes. O santo Papa Clemente (88-97), na primeira Epístola aos Coríntios, recorda de fato o martírio de uma "multitudo ingens" de eleitos, juntamente com os apóstolos Pedro e Paulo.

A memória dessas ferozes perseguições sobrevive no nome da atual "Piazza dei Protomartiri Romani", à esquerda da basílica e em frente ao Campo Santo Teutônico, em correspondência à parte central do circo onde estava o obelisco, ainda hoje testemunha silenciosa do martírio de Pedro e da nascente comunidade cristã de Roma.

Após a Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo (29 de junho) e no dia em que a Igreja celebra a memória dos proto-mártires cristãos de Roma (30 de junho), revivemos esses trágicos acontecimentos pela narrativa do historiador Tácito: "Então Nero, para dissipar tais boatos, apresentou como culpados e submeteu às mais refinadas torturas àqueles que passaram a ser odiados por suas maldades e eram vulgarmente chamados cristãos. (...) Em um primeiro momento, foram presos aqueles que confessavam sua fé, depois, denunciados, muitos outros foram considerados culpados não tanto pelo delito de incêndio, mas por ódio à raça humana. Suas mortes foram acompanhadas pela zombaria: foram cobertos com peles selvagens e foram despedaçados por cães, ou foram crucificados e queimados vivos, para que, como tochas, servissem para iluminar a noite após o pôr do sol. Nero havia oferecido seus jardins para tal espetáculo, enquanto promovia jogos no circo e, vestido de cocheiro, misturava-se à multidão ou participava das corridas em pé em uma carruagem. Por isso eles, embora tivessem se manchado de culpas e merecessem as penas nunca antes infligidas, suscitavam compaixão porque eram sacrificados não em vista do bem comum, mas para satisfazer a crueldade de um só" (Anais 44, XV, 2-5).

Inspirado por essas palavras, o artista polonês Henryk Siemiradzki (1843-1902) pintou o famoso óleo sobre tela (305 x 704 cm) “Tochas de Nero”, onde o imperador, ao entardecer, assiste de seu palácio os atrozes suplícios por ele ordenados. Os cristãos estão representados no lado direito do quadro, envoltos em trapos betuminosos e amarrados em altos postes com guirlandas. Sob as pernas pendiam grandes letreiros com a inscrição em maiúsculas:  "Christianus incendiator urbis generisque humani hostis" ("Cristão, incendiário de Roma e inimigo do gênero humano").

A basílica vaticana foi construída, portanto, em terra banhada pelo sangue dos mártires. Histórias contam que foi o próprio imperador Constantino, no início do século IV, a iniciar com as próprias mãos a cavar as fundações da primeira basílica e carregar nas costas, no oitavo dia após seu batismo, doze cestos de terra para erguer o templo, de acordo com o número dos doze apóstolos. Depois de mais de mil anos, em 18 de abril de 1506, o Papa Júlio II, cavando um buraco nas profundezas daquela mesma terra, no local correspondente ao atual pilar de Santa Verônica, lançou a primeira pedra do novo templo vaticano.

Durante séculos, sentimentos de profunda devoção, religioso respeito e temor reverencial preservaram aquela terra sob o piso da antiga e da nova basílica que, por esse motivo, foi definida como: "Igreja venerável, de cuja terra, caso fosse pressionada pelas mãos, dela quase sairia o sangue dos mártires" (cf. F.M. Torriggio, Le Sacre Grotte Vaticane, Roma 1639).

Na vida de São Pio V (Ghisleri, 1566-1572), narra-se de fato que enquanto o Pontífice passava perto da basílica, aproximou-se devotamente dele um embaixador, para pedir-lhe algumas relíquias de mártires para levar para sua nação. Em resposta a tal pedido, o Papa se abaixou, pegou um punhado de terra do Vaticano e entregou ao embaixador dizendo: "Esta é relíquia de mártires, pelo copioso sangue que derramaram neste lugar".

Assim, novamente em 1615, durante a escavação para a abertura da Confissão vaticana em frente ao altar papal, cônegos e penitenciários da basílica, com grande devoção, ajudaram a levar aquela terra coletada nas proximidades da sepultura do apóstolo Pedro, estipulando-a em um "lugar honroso ”no final da nave sul das Grutas do Vaticano, em um espaço hoje ocupado pelo túmulo do Papa Pio XI e atrás do sarcófago do cardeal Raphael Merry del Val. No mesmo local e em outros lugares das Grutas - como já mencionado por Francesco Maria Torrigio - em 1626 os cônegos de São Pedro transferiram a terra proveniente das fundações das quatro grandiosas colunas do Baldaquino de Bernini.

Por fim, no século passado, durante o pontificado de Pio XII (Pacelli, 1939-1958), a terra proveniente da escavação do "Campo P" junto ao túmulo de Pedro, foi devotadamente coletada em um pequeno espaço fora da basílica junto à assim chamada "Via delle Fondamenta", em um sala especialmente feita com paredes de contenção de tijolos vermelhos, precisamente abaixo da Capela Sistina.

Ainda são devotamente solicitadas à Fábrica de São Pedro relíquias de terra coletadas nas proximidades do túmulo do apóstolo Pedro.

Atualizado em: 30/06/2020 às 05:09
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